O Conto da Orbe | Episódio 8 | Vésper do Sul — “As cores do crepúsculo”

O Conto da Orbe | Episódio 8 | Vésper do Sul — “As cores do crepúsculo”

By M. Jesus Victor | O Conto da Orbe | 4 Sep 2020


As cores do crepúsculo eram sempre diferentes na ilha, talvez por causa do mar ou do sul. Vésper não perdia um desde que chegara àquela bendita praia. Desde que o velho morrera, ele e Gui assistiam por vezes à sublime exibição sentados debaixo da grande árvore, mas naquele dia Vésper estava sozinho. Os aniversários de ambos tinham sido há alguns meses, coincidindo com uma grande pescaria em que participaram, e, à conta de um temporal, chegariam após as datas; além disso, Sara e Mentesúfis haviam-se ausentado de visita a um velho amigo — tudo isto aliado a uma falta de disposição para festas, devido à ainda recente morte do velho Guilherme. Mas, agora, aproximava-se o dia em que Vésper regressaria à Pequena Cidade de Pan; nessa altura Gui decidira preparar um manjar de despedida — e de aniversário atrasado mas não esquecido —, proibindo-o de entrar na cozinha antes que estivesse pronto. Portanto, sem o menor talento culinário e sabendo da paixão do amigo por Sara, e munido da informação de que ela e o pai tinham voltado da breve viagem, entendeu ir à aldeia ainda cedo convidá-los, e fazer assim uma surpresa. Dado o interesse voraz de Vésper pela colecção literária de Mentesúfis, não teve dificuldade em se ocupar parte da manhã. Depois de mais dois dedos de conversa com Mentesúfis, sobre um conto acerca do qual andava a matutar havia vários dias, fez-lhes o convite; o Mestre agradeceu muito, mas, ao contrário de Sara, não lhe garantiu que iria, pois ainda se sentia um pouco cansado, mas que faria o possível. O jovem confirmou a hora a que voltaria para acompanhar a amiga, e despediu-se amavelmente de ambos.

Ao fim dessa tarde, Vésper dissera a Gui que iria dar uma volta pela praia, e aproveitaria para verificar as bóias das redes, uma vez que já tinha embalado a maior parte das suas coisas e limpo a casa, e enervava-o estar sem fazer nada. Isto não passou de uma desculpa para ir buscar Sara. A maré estava muito alta, e a lua cheia; havia bastante claridade e ele não viu precisão de levar a lanterna. Ela já o esperava à porta de sua casa, usava um vestido branco de linho fino muito delicado, com pequenas pérolas negras rematando toda a orla do decote, o cabelo ondulante apanhado com uma fitinha branca lembrou-lhe as pequenas virginais das festas estivais de Pan. Estava verdadeiramente encantadora, ofereceu-lhe o braço, e rindo puseram-se a caminho acenando para o pai orgulhoso que lhe atirava beijos e recomendações, mas à conta do fresco da noite que já se fazia sentir, do ar caiu-lhes também em cima um xaile, de algodão branco finamente bordado com ramos de oliveira e, a marcar o centro do triângulo, um minúsculo curioso botão de rosa vermelho minuciosamente elaborado, obra da falecida mãe de Sara; os dois olharam para cima e viram Mentesúfis que, da janela, ria e os mandava embora.

Caminharam por cima do pontão, a água estava ainda muito subida, e Vésper não queria que a jovem estragasse as delicadas botinas azuis na areia molhada. Passaram por debaixo da palafita da fábrica do peixe, que já ficava bastante afastada da aldeia, começaram a descer a última escada de acesso à praia no fim do pontão, Vésper parou subitamente a meio dos degraus e olhou para o mar na direcção dos dois molhes que, iluminados pelo luar, pareciam um par de braços pálidos estendidos, como quem recebe ou pede, e entrando por eles adentro viu uma embarcação de proporções gigantescas, de tal forma que dava a sensação de ir rasgar o casco de encontro às pedras dos molhes. Deslizava em silêncio como um fantasma, não se avistava tripulação. Sara apertou com força o braço do jovem, e um arrepio percorreu-lhe o corpo. Ele olhou-a e ajeitou-lhe o xaile tapando-a melhor. Voltou-se de novo para a enormidade navegante e, conforme esta entrava pela aldeia, o jovem ia ficando inquieto. De súbito sentiu que se deveriam esconder; no fim da escada elevava-se um acervo de cestos de vime, fediam a peixe ressequido e Sara mostrou relutância em se baixar, mas Vésper puxou-a para baixo e sussurrou:

— Não faças barulho nem deixes que te vejam. — Ela olhou-o com espanto.

— Ora, estão tão longe. Duvido que nos vejam, quanto mais ouvirem-nos!

Vésper não concordava com tal evidência; para ele estavam perto demais, mesmo sem saber explicar porquê. Da embarcação já não se sabia qual a sua cor, o casco estava todo enferrujado cheio de manchas, dir-se-ia bastante maltratado provavelmente pelas inúmeras viagens que terá feito. Vésper não conseguia deixar de admirar o cortejo solitário do gigante, lembrava-lhe um soldado implacável — facto que o levou a recordar algo que ouvira alguns anos antes de chegar a Nana, à sua avó Diáfana, enquanto esta se penteava em frente à ‘parede de água’:

«— … O Tempo marcha sobre as nossas existências como um soldado determinado e implacável, lembrando-nos que não há tempo a perder… — E o seu reflexo na água que escorria imparável pela parede de azulejos era como que a ilustração viva daquelas palavras. O neto, então ainda um mancebo imberbe, posicionou-se entre ela e a parede dando-lhe a mão, puxando-a suavemente e dizendo risonho:

— Anda, avó, vem ver as minhas construções em miniatura à volta da ‘alma Vésper’, e não te preocupes, se preciso for os meus pequenos amigos dão uma palavrinha ao tempo para que marche em silêncio, para que não te perturbe! — Diáfana riu, beijou-o na fronte e agradecendo-lhe a solicitude afastaram-se de mãos dadas pelo jardim de água.»

Sara começava a mostrar nervosismo e impaciência lembrando a Vésper o amigo que os esperava com a comida a esfriar na mesa, e com isto convenceu-o a prosseguir caminho — a última coisa que ele queria era ter de ouvir as resmunguices de Gui a noite toda. A poucos metros das duas habitações a luz de uma lanterna vinha na direcção deles, era Gui que gesticulava barulhento, mas ao avistar Sara toda a sua irritação pela demora se dissipou. Correu a abraçá-la, mal deixando tempo a Vésper de deitar a mão à lanterna que quase caía. Os três encaminharam-se alegremente para a antiga cozinha da casa do velho. Enquanto davam prioridade à jovem, Vésper ouviu o amigo dizer-lhe baixinho:

— É a melhor surpresa, o presente ideal! Obrigado, irmãozinho! — Sorrindo generosamente, tinha a expressão de menino-homem, puxava a cadeira para Sara se sentar e acrescentou, desta vez com um sorriso nostálgico: — Para ser perfeito só faltava estarem aqui todos os nossos saudosos… — Vésper devolveu-lhe o sorriso, tocou-lhe no ombro apertando-o levemente e retorquiu:

— Sabemos lá se não estão… Uma coisa é certa, vivos ou mortos, enquanto os lembrarmos permanecerão. Porém também lhes sinto muito a falta. — Agora foi a vez de Gui consolar o amigo à sua maneira; soltando um suspiro arqueou as sobrancelhas e concluiu:

— Senta-te e vamos comer antes que a comida esfrie. — Depois olhou ternamente para Sara que esperava pacientemente, apreciando o momento dos dois rapazes, dirigiu-se-lhe e, beijando-a ao de leve nos lábios rosados, pediu-lhe desculpa, ao que ela respondeu:

— Nem se fossem irmãos de sangue, apesar de diferentes, teriam almas tão parecidas…

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A seguir…

O Conto da Orbe | Episódio 9
Vésper do Sul — “Precioso demais”

Comida para o corpo e para a mente. Despedida de Vésper… Saudades do passado e do futuro.

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M. Jesus Victor
M. Jesus Victor

Fantastic-realism fiction writer. Born in Lisbon, in the sixties. Several artistic tendencies. Former lead singer in a famous band.


O Conto da Orbe
O Conto da Orbe

O Conto da Orbe é o meu primeiro romance. Uma obra de ficção apaixonada cheia de poesia, talvez o primeiro de uma peculiar saga com um verdadeiro toque lusitano. Uma narrativa inesperada e empolgante que mergulha sinuosamente no realismo fantástico, um género pouco comum, quase inédito no universo dos autores modernos portugueses.

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