A Catedral e o Bazar - pensamentos para o futuro dos ambientes descentralizados

A Catedral e o Bazar - pensamentos para o futuro dos ambientes descentralizados

By lingy | Lingy | 14 Jan 2022


Existe um artigo chamado A Catedral e o Bazar que anda circulando desde os primórdios do mundo Linux. Claro que ele se trata muito mais do desenvolvimento de software do que propriamente das criptomoedas e da web 3.0, mas é interessante de analisar mais a fundo

A Catedral e o Bazar

Para entendermos esse texto, temos que antes compreender o que é uma catedral e o que é um bazar. Vamos analisar um pouco mais a fundo...

Catedrais são sólidas, robustas e resistentes. Uma catedral pode demorar décadas para ser construída, e mais alguns anos para fazer absolutamente qualquer mudança. Catedrais também enfrentam o fator tempo, se a população interessada decidir que a obra precisa de mudanças, as pessoas vão ter que enfrentar burocracia e dor de cabeça para ter qualquer benefício real (isso se tiverem).

Os bazares, no entanto, são comércios, eles tem que se adaptar rapidamente a realidade, senão vão simplesmente serem inúteis e esmagados pela concorrência. Bazares seguem todas as consequências de um livre mercado.

No mundo do software, catedrais são os softwares fechados, sólidos, estáveis e nas mãos de um pequeno grupo, enquanto os bazares são os softwares abertos e descentralizados.

Apesar dos entusiastas do mundo Linux dizerem de forma unânime que o modelo de bazar, isso nem sempre é verdade. Prefiro não entrar em detalhes, mas, para alguns modelos de negócios, como aplicativos de bancos centralizados, não é interessante que todo mundo saiba da estrutura do sistema (não, eu não sou um purista).

Minha definição

Para esse post em específico, vou deturpar um pouquinho o significado original da catedral e do bazar. Embora o contexto de ser mais fácil de modificar seja até um pouco relativo, vamos trocar para algo mais palpável: sistemas descentralizados.

O Gmail, por exemplo, mesmo que seja baseado em uma tecnologia aberta (o email), ainda é um sistema centralizado (e ainda é proprietário), enquanto um serviço de email descentralizado, como os na rede Zilliqa, continua sendo open source. Vamos considerar esses sistemas centralizados, onde o usuário não possui nenhum poder de voto ou voz, como o equivalente moderno ao modelo das catedrais do artigo, e sistemas mais descentralizados como sendo bazares. Pode ser?

Catedrais na era da descentralização

Apesar dos dApps serem populares atualmente, o modelo mais comum ainda continua sendo a das grandes catedrais. Aplicativos bancários são centralizados, aplicativos de vendas são centralizados, até a Steam e a OpenSea são centralizados. Mesmo aplicações que trabalham com criptos, que lidam diretamente com a descentralização, tendem a ser centralizadas. Isso apresenta uma série de vantagens, como manter o controle em cima do seu projeto e ter mais autonomia para fazer o que você precisar. Catedrais são mais escaláveis também: você pode fazer uma catedral que comporte milhares de pessoas, enquanto bazares são menores.

A Google, por exemplo, é um exemplo fenomenal disso. Ao privilegiar grandes corporações em suas políticas internas e externas, ela acaba por gerar grandes recursos a curto prazo, mas abre grandes feridas na confiança dos usuários. Porém é uma solução rápida e escalável, muito mais simples do que cada um hospedar um servidor com os vídeos que quiser e divulgar com as pessoas que gosta (claro que existem formas mais simples e práticas, mas não vamos entrar nesse tema agora).

Bazares na web 3.0

E os bazares?

Embora em outros projetos open source, como o Linux, as coisas andem razoavelmente mais rápido que nos seus equivalentes fechados, no mundo descentralizado as coisas não são tão simples.

Se pegarmos, por exemplo, nossa própria moeda do país (seja ela o dólar, o real ou qual você usar em seu país), ela é centralizada, e todas as decisões sobre o futuro da moeda dependem dessa entidade central. Mesmo que você tenha benefícios ou gastos com tal moeda e com suas transações, você não tem direito de opinar sobre ela.

Agora vamos pegar o Bitcoin, o Litecoin ou qualquer moeda descentralizada. A votação em cima da moeda ocorre usando sua carteira, você decide atualizando sua carteira para o protocolo ou alteração nova, e, se uma grande maioria da rede votar para aceitar a alteração, ela será aceita. Isso aconteceu, por exemplo, na divisão entre o Bitcoin e o Bitcoin Cash.

A verdade é que não lidamos muito bem com descentralização. Alterações em modelos descentralizados tendem a gerar benefícios a uma parcela maior dos envolvidos que alterações em modelos centralizados, porém a dificuldade para se executar as coisas de forma verdadeiramente descentralizada é imensa. Você tem Bitcoin, certo? Isso significa que você tem uma carteira full node? Provavelmente não. E quanto a seu blog? Contratou o Blogger ou o Wordpress ou deixou rodando um servidor na sua casa? Tem seu próprio servidor de email ou usa o Gmail? Todos nós tendemos a pensar de forma centralizada porque é mais simples e mais rápido, mesmo que isso não gere tanto lucro a longo prazo.

Qual é o melhor?

Ao contrário do contexto do artigo anterior, ambos os modelos possuem vantagens e desvantagens, e ambos os modelos possuem também complexidades diferentes de implementação, por isso é tão difícil dizer qual é o melhor ou o pior.

Ok, temos a Odysee como exemplo de concorrente descentralizado do YouTube, mas você realmente iria preferir criar um dApp logo de cara para seu projeto inovador mesmo que não exista uma demanda pelo mesmo? E você iria realmente querer despender recursos e mais recursos para criar algo centralizado sendo que se criar de forma descentralizada ele irá beneficiar muito mais pessoas?

Não existe uma resposta correta, tanto que existem hoje muito mais soluções centralizadas que descentralizadas. Claro, ainda estamos engatinhando nas tecnologias descentralizados, mas eu não acredito que tecnologias centralizadas simplesmente morrerão, e nem que tecnologias descentralizadas serão algum dia uma hegemonia.

Pensando em tecnologias descentralizadas, inclusive, temos três pilares dos quais apenas podemos escolher dois. Esses pilares são a descentralização, a escalabilidade e a segurança. Esses três pilares são o chamado trilema da escalabilidade, e, embora sejam focados ao contexto de criptomoedas, podemos perceber isso em outros sistemas completamente diferentes, ou até mesmo comparar sistemas de naturezas diferentes. O Pix, sistema de pagamentos brasileiros, é escalável e é seguro, mas é totalmente centralizado na entidade do Banco Central, enquanto o Bitcoin é seguro e é descentralizado, mas não é facilmente escalável. Existem diversos outros exemplos de aplicações descentralizadas e centralizadas, mas todas esbarram nesse mesmo problema: dos três, você só pode escolher dois.

Por isso que eu digo, não existe necessariamente um melhor ou pior, existe espaço para todos, e sempre existirá.

Qual é o futuro?

Apesar do futuro ser incerto sempre, o que eu acredito que acontecerá é que os projetos e negócios da web 3.0 cada vez mais deixarão de serem catedrais ou bazares, e cada vez mais eles começarão a abrangerem um pouco dos dois mundos. Antigamente já existia a diferença entre um banco digital e um banco não-digital, mas hoje essa diferença se trata muito mais da origem de cada um dos bancos do que de fato de funcionalidade e de operação. Simplesmente comparar ambos não faz mais muito sentido: onde começa o digital e onde termina ele? E isso é o que eu acredito que ocorrerá com a popularização de sistemas descentralizados.

Hoje ainda é muito nítido onde termina o centralizado e onde termina o mesmo. Porém isso tende a mudar com o tempo. Mesmo que muitos acreditem que os limites vão continuar claros e bem delimitados, eu não acredito nisso, acredito mais que surgirão opções mistas e parcerias entre serviços centralizados e não centralizados, assim como hoje existem soluções que misturam software livre e software proprietário.

Claro que eu posso estar errado e um dos modelos possuir uma clara predominância no futuro, ou um sucesso absoluto, mas a minha aposta para o futuro da descentralização são sistemas mistos, onde parte da arquitetura do sistema pode vir de fontes centralizadas e outras podem vir de fontes descentralizadas.

Um exemplo disso é a Odysee, onde o coração do sistema é o protocolo LBRY, que é descentralizado, mas toda a parte do frontend e dos próprios servidores cache é centralizada. Isso abrange o melhor dos dois mundos, permitindo escalabilidade e descentralização. O mesmo acontece com as redes de criptomoeda e as chamadas "carteiras lightning", como a carteira Tip.CC, que, apesar de usufruirem dos protocolos de redes de criptomoedas descentralizadas, ainda são implementados de forma centralizada.

Mas e você? O que acha? Qual será o futuro da internet e das aplicações? Conta pra mim aí nos comentários.

How do you rate this article?

0



Lingy
Lingy

My personal blog about technology

Publish0x

Send a $0.01 microtip in crypto to the author, and earn yourself as you read!

20% to author / 80% to me.
We pay the tips from our rewards pool.