O Conto da Orbe | Episódio 9 | Vésper do Sul — “Precioso demais”

O Conto da Orbe | Episódio 9 | Vésper do Sul — “Precioso demais”

By M. Jesus Victor | O Conto da Orbe | 12 Sep 2020


Já sentados puderam apreciar o esforço do cozinheiro. Digna de Epicuro, a mesa apresentava um verdadeiro banquete: num prato grande repousava uma fumegante e bem temperada almonjava; num tabuleiro, com bananas a acompanhar, estavam várias postas grelhadas de peixe-espada preto das profundas águas ao largo da ilha — Gui fizera-se ao mar no palhabote, e o resultado ali estava, divinalmente temperado com salsa, alhos e um fio de azeite das oliveiras das Terras Cálidas do interior. Ao lado de uma travessa com pequenas batatas douradas assadas no forno, e outra repleta de diversos legumes salteados em azeite, alho e louro, num recipiente de barro uma carne tenra e suculenta fumegava, exalando aromas de louro, rosmaninho, tomate, azeite, alhos e limão, regada com um cálice de vinho tinto envelhecido, o mesmo com que eles brindavam o duplo aniversário; e, para rematar, um delicioso bolo com recheio de doce de ovos-moles, coberto de natas batidas e morangos. A mesa estava coberta com uma toalha de renda fina, onde as pétalas brancas e vermelhas davam o tom, e a Vésper falavam aos sentidos: na sua vida o pai e a mãe eram como pontos cardeais temporariamente adormecidos, porém sempre presentes, e naquela noite sentia-os tão perto que quase os podia ouvir. Imerso nestes pensamentos não se deu conta de que Gui e Sara falavam com ele.

— Então? — perguntou a jovem. — Onde é que estavas? — E riu. Vésper pediu desculpa, e mais uma vez se deliciou com as iguarias, não poupando nos elogios ao mestre cozinheiro. Tentava prestar atenção às conversas dos amigos, mas havia uma imagem colada à sua mente que teimava em não o largar: o gigante do mar que entrara naquela noite na aldeia. Por alguma razão perturbava-o, deixando-o inquieto. Foi arrancado à divagação pelas pancadas na porta da rua; fizeram silêncio. Gui levantou-se, perguntou quem era, e alguém respondeu em tom grave: «Encomenda!»

Os três estranharam, dado o avançado da hora, mas de facto naquela aldeia os serviços eram prestados consoante a necessidade do momento, de modo que Gui abriu a porta e viram Mentesúfis, enrubescido e ofegante, trazia debaixo do braço um embrulho. Sara exclamou:

— Paizinho!? Ainda bem que vieste! — Gui apressou-se, convidando-o a entrar, dizendo:

— Mestre Mentesúfis, mas que boa surpresa! Entre, entre por favor!

O homem cansado, mas bem-disposto, sentou-se de bom grado no lugar à mesa que lhe ofereciam; já o jantar foi recusado, explicando:

— Lamento mas tenho de declinar tão deliciosa refeição, estou certo. Mas, bem vêem, depois de Sara sair fui cear, e estava quase a terminar quando reparei neste embrulho em cima da arca. A minha filha, que voa em vez de andar, tinha-se esquecido do presente de Vésper. Ora, decidi no mesmo instante que seria o seu portador. — E estendeu o volume ao jovem, que agradeceu a ambos.

Mentesúfis era um homem culto, simultaneamente sensível e generoso, e muito bem conservado para a idade. Sara foi um bebé muito querido e tardio; a sua mãe, que já não era muito nova, não sobreviveu ao parto. Mentesúfis nunca mais se interessou por outra mulher, pelo menos não da mesma forma, como pela sua Sal; e do seu tesouro passaram a fazer parte a memória da sua amada, a sua filha e os livros…

— E hoje, nesta data duplamente auspiciosa, faço-vos uma confissão: há já algum tempo que sou mais rico do que se pensa, pois do meu tesouro fazem parte dois dos melhores jovens que alguma vez conheci: Gui e Vésper! Brindo às vossas vidas e respectiva longevidade… — Os quatro ergueram os copos solenemente, os dois jovens sentiam-se honrados, abraçaram Mentesúfis gratos pela sua amizade e confiança. De volta à mesa e aos doces, era a vez dos presentes; entusiasmado, Vésper abria o seu com a ajuda de Sara que tinha atado bem demais as fitas; ao ver o livro, o jovem sentiu uma enorme satisfação, ao mesmo tempo que dizia ao Mestre que era precioso demais, aceitá-lo seria como desmembrar a sua colecção, e como tal, o seu lugar deveria continuar a ser junto das outras grandes obras… Ao mesmo tempo que da sua boca eram proferidas estas palavras, os seus olhos bebiam as do livro, que os seus dedos percorriam delicadamente, como da primeira vez. O homem mais velho pegou na mão de Vésper que segurava o livro, tirou-lho gentilmente dizendo:

— Nenhum livro deveria ter de permanecer numa prateleira poeirenta à mercê do tempo e do esquecimento. O seu lugar é nas mãos de quem os possa amar de novo, e assim torná-los vivos. E este foi o teu primeiro, o primeiro de um longo percurso… — Devolveu-lho acrescentando: — … Não agradeças, sei o bem que lhes queres, isso para mim é tudo.

Vésper por instantes não percebeu se ele se referia aos livros ou a pessoas; fosse como fosse era sabido que Mentesúfis tratava as obras da sua biblioteca com a mesma consideração, tal como se dos próprios autores em pessoa se tratasse, chegando mesmo a encetar vários ensaios filosóficos com os seus pares mudos, «mas não surdos, como alguns vivos!», costumava dizer.

Olhou para o jovem Guilherme, este ria entusiasticamente enquanto escutava os dois amigos que agora liam divertidos algumas passagens do livro, alternando com vozes risíveis. Mentesúfis soube naquele momento que aqueles três jovens estavam unidos pela inocência: a sua filha Sara nunca ficaria só no futuro. Levou a mão ao bolso, de lá tirou uma pequena caixa de prata que estendeu a Gui dizendo-lhe:

— Há cerca de um ano o teu pai, meu velho e saudoso amigo, procurou-me e confiando-me este pequeno tesouro pediu-me que to entregasse no dia em que voltasses a celebrar a tua vida…

Gui segurava o objecto como se fosse quebrável, o seu semblante tornou-se nostálgico e distante: a tampa singularmente trabalhada representava um guilherme; numa ponta um pequeno Sol rubro esmaltado, na outra uma Lua cheia nacarada, e entre os dois uma embarcação de madeira minuciosamente esculpida em baixo relevo. Eram as suas armas, desde o primeiro da sua família, e aquele era o símbolo feito testemunho e passado de geração em geração. Mantinha o olhar fixo no desenho enquanto o Mestre o esclarecia; porém Gui parecia não o ouvir:

— Não percebo… Porque não ma deu ele enquanto estava vivo? Para que lhe pudesse agradecer e dizer-lhe… — Mentesúfis, num tom paternal, sugeriu-lhe que a abrisse. Ele assim fez. Por esta altura já Sara e Vésper se tinham quedado fazia tempo, e em silêncio esperavam. Gui retirou de dentro da caixa um prego em prata, uma semente, um pedaço de pano-cru amarelecido pelo tempo com a inicial bordada e um papel enrolado. Confuso, olhou para os amigos; Vésper, que já começara a noite de ânimo estranho, via agora essa sensação adensar-se no peito. Sara levantou-se na direcção de Gui, e sentando-se a seus pés, disse-lhe carinhosamente passando-lhe a mão no rosto:

— Talvez devas ler isso a sós… — O rapaz sorriu e, retribuindo-lhe a carícia, concordou.

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A seguir…

O Conto da Orbe | Episódio 10
Vésper do Sul — “Uma recepção ruidosa”

Agitam-se os ânimos e estreitam-se os laços entre amigos numa noite festiva.

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M. Jesus Victor
M. Jesus Victor

Fantastic-realism fiction writer. Born in Lisbon, in the sixties. Several artistic tendencies. Former lead singer in a famous band.


O Conto da Orbe
O Conto da Orbe

O Conto da Orbe é o meu primeiro romance. Uma obra de ficção apaixonada cheia de poesia, talvez o primeiro de uma peculiar saga com um verdadeiro toque lusitano. Uma narrativa inesperada e empolgante que mergulha sinuosamente no realismo fantástico, um género pouco comum, quase inédito no universo dos autores modernos portugueses.

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