O Conto da Orbe | Episódio 7 | Vésper do Sul — “Um pequeno sopro de nostalgia”

O Conto da Orbe | Episódio 7 | Vésper do Sul — “Um pequeno sopro de nostalgia”

By M. Jesus Victor | O Conto da Orbe | 26 Aug 2020


Sara e seu pai Mentesúfis, com a ajuda dos quatro homens, trouxeram a grande mesa de madeira para a praia, e puseram-na com a refeição festiva e bem regada que haviam preparado entretanto durante toda a manhã, com a ajuda de Gui. Vésper e a cozinha não combinavam; assim sendo — e para que não atrapalhasse —, foi-lhe pedido que remasse no pequeno bote com um dos quatro homens até ao Periélio, para que largassem a âncora e desamarrassem o tal proiz que o prendia à ilha. A sugestão deixou-o muito feliz e excitado; ia entrar pela primeira vez no seu palhabote, cheirá-lo, tocar-lhe… Enfim, namorá-lo.

Conforme se afastava da praia via a agitação alegre dos amigos; Sara perseguia Gui forçando-o a um banho de mar como alternativa, provavelmente, a uma qualquer tarefa que ele detestava. Mentesúfis gesticulava ralhando com Sara, os outros homens intrigantes riam, atirando as cabeças para trás. Mas Guilherme era como um farol, muito direito, com os pés na beira do mar olhando-o, observando atentamente a distância, parecia que os seus olhos não estavam a mais de dois palmos… no entanto Vésper via-se afastar a cada remada, até que embateram no casco do palhabote; olhou para trás, apanhou a escada de corda que o homem já lhe estendia e trepou lá para dentro, enquanto o outro prendia o bote, subindo logo atrás dele. Uma vez lá em cima, olhou de novo para a praia e já o velho se afastava na direcção do salgueiro, onde ficou sentado como de costume.

Vésper e Gui saíam sempre que possível no Periélio com os quatro homens — nunca iam até muito longe, apenas o suficiente para testar a embarcação e trazer algum pescado. Um dia, regressavam ao fim da tarde de uma pescaria, e deram com o velho deitado debaixo do salgueiro: parecia adormecido, mas logo se aperceberam de que morrera. Envergava uma túnica de linho que lhe cobria o corpo até aos pés; na mão esquerda segurava duas pétalas de rosa secas, com as cores já desbotadas, e na outra mão um pequeno emaranhado de raízes ainda com terra agarrada, de onde saía um mínimo caule verde. Gui explicou a Vésper que «depois das cinzas lançadas à passagem de Austro a partir do salgueiro, o montículo de raízes deverá ser plantado num ponto oposto àquele, e à passagem de Bóreas, logo que a oportunidade surja», como era o desejo do seu pai. Entretanto a pequena planta foi envasada à espera do seu dia.

Dois anos se passaram desde a chegada de Vésper à ilha de Nana, e há quase um ano que ele e Gui estavam sozinhos. Aproximava-se a época quente das grandes chuvadas. Deitado na areia sob a sombra protectora da árvore do velho, Vésper sonhava com a sua terra natal, as saudades de seus pais Aira e Dérop apertavam-lhe o peito: lembrou-se do menino feliz despreocupado, na segurança do amor incondicional dos dois, e das muralhas pintadas do jardim de água. Naquele momento quis voltar e repensar o seu desejo de aventura e de viajar, e dizer-lhes pessoalmente o quanto os amava. Deambulando no tempo, outra memória se avivou subitamente:

«Pouco antes da sua morte, Guilherme cozinhava ao lume do velho fogão um guisado de peixe com tomate, louro e azeitonas, para a ceia dos três; ao lado preparava uma infusão com folhas de várias plantas, e, de vez em quando, levava os dedos a uma taça vazia de loiça branca, fazia o gesto de quem tirava algo e de seguida deitava na infusão; dizia ele tratar-se de uma erva mágica que só existia para quem acreditava nela, e que curava todos os males; os antigos ter-lhe-ão dado o nome de ‘Panaceia’. Numa outra tacinha de barro estavam algumas pétalas de rosa brancas e vermelhas, que lembraram a Vésper as outras duas da carta de seus pais. Gui punha a mesa e o amigo acendia a candeia de cinco bicos. Enquanto a elevava através da roldana, sustentando-a por cima da mesa e prendendo a corda no gancho da parede, observava os gestos quase ritualizados do velho, e quando este se virou com a travessa fumegante, e um sorriso de satisfação anunciando estar pronta a comida, Vésper, enquanto se sentavam, perguntou:

— Aquelas pétalas, as da carta, qual o seu significado? — O velho começara a servi-los calmamente, os dois jovens iam-lhe passando os pratos, voltando a recebê-los cheios. Insistiu: — Não que tenha de haver algum, mas reparei no recipiente com pétalas iguais e…

O velho comia sorridente, os dois rapazes entreolhavam-se; Vésper desistiu e comentou a iguaria, Gui aquiesceu de boca cheia enquanto empapava o pão de água no molho, e o empurrava com a ajuda do vinho novo que o seu pai fizera fraquinho, para que os dois jovens o pudessem beber de vez em quando sem lhes toldar a razão — contudo, Vésper raramente bebia líquidos espirituosos. No fim, o velho foi ao forno onde a lenha já só era um braseiro, e voltou de lá com um bolo de canela e mel, retirou da tacinha as pétalas, que ainda retinham o seu perfume, e espalhou-as sobre os pratos vazios. De seguida cortou três fatias e distribuiu-as. Preparavam-se os dois jovens para atacar o irresistível doce, quando começou:

— Pôr questões de barriga vazia é insensato, e tentar responder-lhes é ainda mais. Se se deixar para depois do doce, já nem a questão importa, e muito menos a resposta. — Vésper e Gui olhavam-no à espera. Continuou: — As brancas são o desejo, a paz. As vermelhas são o sangue vivo não derramado, a vida. — Disse-o olhando o nada, como se alguma memória forte o tomasse, e depois falou das roseiras no jardim de água de Aira e Dérop. Vésper reparou que os seus olhos, enquanto falava dos amigos, ganhavam um tom esverdeado de água, e podia jurar que eram lágrimas, mas nenhuma se permitiu percorrer as faces endurecidas, invólucro de uma alma tão suave.

— Há alguma razão especial para que eles as tenham enviado? — Vésper já havia esquecido o bolo, Gui porém, pela calada, já ia na terceira fatia. O velho olhou-o nos olhos como sempre fazia quando a coisa era séria e, ganhando uma expressão soturna, disse-lhe:

— A razão, a única, deve-se ao amor imenso que te têm, tanto quanto o mar todo e a terra toda por nós. — Fez uma pausa. Vésper deixara ele próprio escapar um pequeno sopro de nostalgia, o velho sorriu, meteu-lhe o garfo na mão e ordenou-lhe gentilmente: — Vá, come o teu pedaço de doce. — O jovem provou o bolo devagar meio absorto, enquanto o outro ralhava ruidosamente com Gui, que já devorara cinco fatias, e os efeitos da gula já se faziam sentir: pediu licença e, agarrado à barriga, saiu porta fora correndo para a moita mais próxima. O velho apontando com o queixo para a porta escancarada observou, bem-humorado: — O guloso do meu filho, teu amigo, quando voltar terá uma taça cheia de infusão de ervas purificantes e Panaceia; far-lhe-á bem à tripa!»

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A seguir…

O Conto da Orbe | Episódio 8
Vésper do Sul — “As cores do crepúsculo”

O Tempo marcha sobre as nossas existências como um soldado determinado e implacável.

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M. Jesus Victor
M. Jesus Victor

Fantastic-realism fiction writer. Born in Lisbon, in the sixties. Several artistic tendencies. Former lead singer in a famous band.


O Conto da Orbe
O Conto da Orbe

O Conto da Orbe é o meu primeiro romance. Uma obra de ficção apaixonada cheia de poesia, talvez o primeiro de uma peculiar saga com um verdadeiro toque lusitano. Uma narrativa inesperada e empolgante que mergulha sinuosamente no realismo fantástico, um género pouco comum, quase inédito no universo dos autores modernos portugueses.

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