O Conto da Orbe | Episódio 13 | Meninas e Caprichos — “Lágrimas de todos os povos”

O Conto da Orbe | Episódio 13 | Meninas e Caprichos — “Lágrimas de todos os povos”

By M. Jesus Victor | O Conto da Orbe | 10 Dec 2020


Subitamente a chuva parou. Preparavam-se para sair quando o rapaz se deteve, virando-se para a porta atrás deles; rodou a maçaneta, e entrou. O Mestre seguiu-o, observando em silêncio o jovem, que parecia ausente. Na sua frente, a sala grande forrada de azulejos brancos com motivos marítimos destacados a azul estava toda molhada; cheirava a peixe e a sal. Através das várias janelas entravam os primeiros raios, anunciando o regresso do Sol, que abria caminho qual monarca reclamando o seu reino. Nas bancadas compridas de pedra mármore descansavam as facas afiadas e as balanças; a luz filtrada pelas vidraças parcialmente matizadas e pela água que lá fora ainda gotejava dos beirais mergulhava o espaço adormecido numa dimensão irreal. Esta magia foi quebrada por Mentesúfis, que disse baixinho:

— Vésper; estás a ouvir? É esta a litania que te ouvi hoje, enquanto dormias… Donde será que vem?

O jovem, sem responder, procurou com os sentidos, detendo-se na caixa grande de madeira onde guardavam o sal bruto, com as duas enormes tampas no topo, e pegas redondas em cerâmica. Percebeu que por detrás da caixa outro painel se adivinhava, ao contrário de todos os outros da grande sala, que se exibiam plenamente com motivos similares: o mar e a faina. Curioso, e com a ajuda de Mentesúfis, afastaram-na da parede, de onde parecia nunca ter sido tirada. Os pescadores no dia anterior tinham usado o sal todo nos salmoeiros, daí a facilidade com que os dois a removeram. Vésper libertou o painel do suave manto de minúsculos limos com um pedaço de rede fina, rematando com uma baldada de água, e, enquanto esta escorria pela parede, os desenhos, não só azuis, destacavam-se em tons de verde, castanho, amarelo e rosa, num breve movimento aquoso. Agachados, ambos o miravam em silêncio, mas cada um de modo diferente.

— É espantoso!… — começou Mentesúfis. — Passou tanto tempo desde a primeira e única vez que vi este desenho junto com tantos outros; tratava-se então de um simples esboço no papel desenhado a carvão por Mestre Vaz, o arquitecto, pai de Sal. Também ele, autor desta fábrica e da casa onde vivo. Já nem me lembrava disto, e de como é belo… E vem com uma pequena história, sabes?

Vésper, enquanto o ouvia, estudava atentamente todos os pormenores; curiosamente era a única ilustração onde estava retratado o interior da ilha, isto é, de costas para o mar. Nele via-se o céu claro diurno, e a recortá-lo o antigo campanário em ruínas, à sua volta os ciprestes centenários, as oliveiras e o pomar, e em grande plano a representação estranha de uma balança: num dos pratos uma pilha perfeita de sal, e no outro uma criança de colo dormindo, chupando o polegar; o fiel, equilibrado, apresentava uma quase imperceptível insígnia: constava de uma régua, um esquadro e um compasso, que, formando um ‘V’, servia de monograma. Porém, o que mais impressionou Vésper foram as pequenas figuras despercebidas no rodapé do painel, em tom de legenda. Reconheceu-as de imediato. Surpreso, levantou-se bruscamente, e quase vacilou. O homem mais velho amparou-o, aconselhando-o a não se erguer tão rápido. O jovem, algo baralhado, quis saber a tal história sobre aquele desenho peculiar.

— Vaz era um homem de poucas falas… — dizia Mentesúfis puxando um banco tosco de madeira, sentando-se ruidosamente, enquanto Vésper, focado no Mestre, se içava com as mãos para cima da caixa de sal, ficando sentado com as pernas cruzadas. — … Apesar de correcto e educado, não mostrava especial paciência nem queda para os assuntos triviais do quotidiano; isso, e o facto de não ter mulher, valia-lhe uma aparência um pouco descuidada; era, contudo, apessoado e pouco sorria, o que lhe dava um certo ar misterioso. Todos estes predicados se traduziram em alguns anos de cobiça por parte das mulheres disponíveis… Bom, da maioria das mulheres! Adiante. Quando chegou à ilha, era ainda um jovem rapaz, trazia nos braços a pequena Sal, sua filha, facto que terá de imediato comovido e atraído o género feminino, está claro. Porém, optou por levar uma vida celibatária, totalmente dedicado à pequena. Diz-se que passava muito tempo no campanário, tentando recuperá-lo, quase de forma penitente… Escusando-se a qualquer ajuda, apenas contratou uma nutriz, encarregando-a não só da respectiva alimentação da criança bem como do seu transporte, pois para onde quer que fosse fazia-se acompanhar sempre pela filha. Nas Terras Cálidas do interior, quando ia para o campanário, as duas ficavam na sombra do pomar a salvo do calor e da poeira irritante das ruínas; aliás, foi lá que anos mais tarde eu e Sal acabaríamos por nos conhecer, sempre sob o olhar conspícuo da ama.

Vaz concebeu esta fábrica, supervisionando pessoalmente todos os trabalhos, chegou até a sujar as mãos, e no fim, quando os pescadores o quiseram remunerar, o bom do arquitecto não aceitou pagamento. Assim sendo, decidiram oferecer-lhe o campanário e a terra em redor, as Terras Cálidas, como ficou conhecida. Num acto de gratidão e homenagem à vida árdua e corajosa daqueles homens, criou todos estes painéis contando a sua história, reservando o último, este mesmo, para narrar, sumariamente, julgo eu, a sua própria, e ao mesmo tempo deixando a sua assinatura.

— E a criança, quem é? O que significa…? E a balança com o sal? — insistia o jovem.

— Presumo que tudo isso simbolize o passado de Vaz, antes de chegar a Nana. — Mentesúfis levantara-se com uma expressão séria e cansada, não desviando o olhar do desenho, seguido atentamente pelo rapaz. — Sal era mais que sua filha. Era a sua redenção!…

E agora, com os olhos vagos, deambulava pelas memórias de uns e outros, que lhe haviam sido confiadas, e tornadas ausentes. Ao fim de tanto tempo, tinha a sensação de que era chegada a hora de desnublar a mente. E assim narrou a história de Vaz.

«Oriundo das Escarpas do Norte, viajou muito. Navegou até onde as grandes naves o levaram. Chegado a uma região estranha, chamada Velho Oriente, terá desembarcado e seguido para o interior, onde conheceu o Colectivo, que, segundo ele, não passava de uma organização praticamente acéfala, lembrando um imenso formigueiro, ultrapassada e insensível. Viviam frenéticos, simplesmente sonegados às próprias vidas, sem vida própria. Perversamente, aquilo era tudo o que eles conheciam desde sempre, e, portanto, sem estar certo ou errado, era a vida.

O então idealista e muito jovem Vaz, ao fim de algum tempo, acaba encetando uma tentativa de acção revolucionária, conseguindo a simpatia de alguns jovens que timidamente se lhe juntaram nas ideias. Nem chegaram a sair para a rua. A Força Armada irrompeu no compartimento onde estes dormiam, puxaram Vaz sem violência, imobilizando-o num canto do espaço austero. Ao sinal de um deles, fizeram entrar uns quantos rapazinhos, cada um munido de uma espécie de catana, e, sem uma palavra, sem um som, esperaram o movimento seco da cabeça do guarda que ficara na porta, imóvel. Vaz foi forçado a assistir à chacina de jovens como ele às mãos de crianças treinadas para matar. Os seus gestos desordenados por falta de força nos braços franzinos, empunhando com ambas as mãos as armas pesadas, traduziam cada catanada em mutilações grotescas, deixando as vítimas em agonias atrozes, perante algumas hesitações dos agressores, que por inexperiência não acertavam em pontos vitais, não conseguindo pôr assim fim ao desumano sofrimento. A matança durou o que lhe pareceu a eternidade no inferno.

Mais tarde, foi levado à presença dos representantes do Colectivo, e foi-lhe dito muito sucintamente que, sendo ele um ‘perturbador do processo’, estava a partir daquele momento expulso do território. No entanto, e já que era o responsável pelas mortes, podia formular um pedido, visando algum equilíbrio. O jovem Vaz, em choque, sujo do seu próprio vómito e do sangue dos inocentes, vislumbrou naquele cenário de horror uma pontinha de alma. A medo, pediu que lhe fosse entregue um dos recém-nascidos, cujos pais tinham por costume entregar à guarda do Colectivo — para que no futuro viessem a pertencer orgulhosamente à Força Armada. O pedido foi-lhe concedido, em troca do peso da criança em sal…»

Vésper tinha os olhos esbugalhados. Estupefacto, olhava o velho. Este por sua vez, cabisbaixo, apanhou uma pequena porção de sal do que se encontrava espalhado pelo chão, e acrescentou, plangente:

— Estes minúsculos cristais, abundantes nos mares do mundo, já foram outrora tão preciosos como se de diamantes raros se tratasse, ao ponto de terem servido de moeda de troca… Vidas duras, as dos salineiros, famílias inteiras, homens, mulheres, crianças, velhos, todas as suas histórias, todas as suas fugazes existências imprimidas a suor e sangue nos cristais solúveis. Talvez sejam mesmo as suas lágrimas que conservam e temperam as nossas peças de caça e de pesca.

O rapaz com o indicador remexia um montículo de sal com olhar distante. Mentesúfis levantando a cabeça acrescentou:

— Tudo isto me lembra as palavras de um poeta dos Lusitanos…

Vésper num tom assertivo desabafou:

— Talvez os mares sejam mesmo feitos das lágrimas de todos os povos.

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Brevemente…

O Conto da Orbe | Episódio 14
Meninas e Caprichos — “Mortório ancestral”

Tentando perceber o que sucedeu na aldeia, Vésper e Mentesúfis entram no campanário. Espera-os uma surpresa.

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M. Jesus Victor
M. Jesus Victor

Fantastic-realism fiction writer. Born in Lisbon, in the sixties. Several artistic tendencies. Former lead singer in a famous band.


O Conto da Orbe
O Conto da Orbe

O Conto da Orbe é o meu primeiro romance. Uma obra de ficção apaixonada cheia de poesia, talvez o primeiro de uma peculiar saga com um verdadeiro toque lusitano. Uma narrativa inesperada e empolgante que mergulha sinuosamente no realismo fantástico, um género pouco comum, quase inédito no universo dos autores modernos portugueses.

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