O Conto da Orbe | Episódio 12 | Meninas e Caprichos — “Uma aldeia fantasma”

O Conto da Orbe | Episódio 12 | Meninas e Caprichos — “Uma aldeia fantasma”

By M. Jesus Victor | O Conto da Orbe | 17 Nov 2020


O vento batia-lhes de frente parecendo mãos suaves querendo impedi-los de avançar, a areia fina atrasava-lhes a caminhada, e a luz do Sol brilhando indiferente quase os cegava. O mar ondulava ligeiramente, e as tímidas rebentações eram o único som — curiosamente não se ouviam os pássaros como era usual, e principalmente as cigarras que naquela altura do dia, com as suas cantigas, eram predominantes. Vésper, receoso por um lado, e bastante impelido por outro a ir até à aldeia, tinha a mente cheia de coisas estranhas e pensamentos confusos — até porque de repente se lembrava muito bem do sonho das pessoas de papel; pormenorizadamente! Mentesúfis por seu lado aparentava algum cansaço, para além da preocupação. Decidiu parar para retomar o fôlego, sentando-se numa rocha. O rapaz, de tão absorto, só se apercebeu de que o outro parara alguns passos depois. Voltou atrás, pediu desculpa por ir tão depressa, e sentou-se a seu lado.

Tinham permanecido em silêncio até ali; voltados para nascente já conseguiam avistar algumas das casas da aldeia, em destaque a fábrica do peixe erguia-se apoiada parcialmente na sua palafita de madeira grossa com pés de pedra mergulhados na beira do mar. Vésper pegou distraidamente numas pedrinhas e atirava-as indolentemente umas contra as outras, num movimento arqueado…

— Desde os tempos primevos de Petra que os homens se juntavam num espaço ao ar livre para uma actividade de lazer, que consistia no arremesso de bolas pequenas umas contra as outras num chão de terra batida, tal como estás a fazer, e com determinadas regras, bem entendido! — observou Mentesúfis, pondo-se de pé. Espreguiçou-se soltando um pequeno protesto, apoiando as mãos nos rins. Vésper olhou para cima e perguntou-lhe se as mulheres não jogavam também, ao que o Mestre respondeu que elas estavam sempre tão atarefadas: ora com os lares e os filhos, ora urdindo planos, por vezes umas contra as outras, sempre pondo e dispondo disto e daquilo, que a única coisa para a qual lhes sobrava tempo era para amar… e sonhar.

— Mestre, de certeza que foi isso que eu perguntei?

— Não sei, mas tenho a certeza de que era isto que te queria responder. Sem querer, fizeste-me recordar uma mulher em particular, que tive o privilégio de conhecer, e que um dia em que o medo me escureceu o espírito e tolheu a razão, deixando-me a escassa distância da autodestruição, me segurou as duas mãos entre as suas e me rezou: «as mulheres são meninas que o tempo corrompe… os homens são eternos meninos que, com o tempo, as meninas têm, amam e querem proteger do tempo, porque só o amor ímpar de que o homem é capaz as manterá a salvo, e ao sonho…»

O rapaz, que o ouvira atentamente, baixou a cabeça, meteu as mãos nos bolsos e, dando um pequeno chuto numa das pedrinhas, foi dizendo que tudo aquilo tinha com certeza várias leituras, e uma delas seria certamente a sua, e que com o tempo haveria de a descobrir…

— Se é que não a sabes já! — referiu o homem mais velho; e dando-lhe uma pancadinha no ombro recomeçaram a caminhar. — Ah, meu jovem amigo, o Tempo… é o nosso maior aliado, e o nosso maior inimigo…

Estavam quase a chegar ao primeiro lanço de escadas do pontão antes da aldeia e Vésper, tal como no princípio da noite anterior, parou segurando levemente o braço do amigo, e, virando-se para ele, perguntou-lhe acerca da história que lhe contara, quem era a mulher, e porque sentiu ele um medo tão nefasto. O rosto de Mentesúfis ficou sombrio e triste, e explicou-lhe que a origem de tal sentimento era a iminência da morte de Sal, sua mulher: não suportava a ideia de viver sem ela, até que alguém lhe chamou a atenção para a menina no berço, na iminência da vida, com carência do amor ímpar do seu pai, que a manteria a salvo, e ao sonho.

— Esse alguém era Aira, a tua mãe. Ela e o teu pai, Dérop, estiveram aqui na ilha de Nana uma única vez, de visita aos Guilhermes, e tu vinhas na sua barriga. Partiram dias depois, e nasceste passado pouco tempo. — O jovem sorriu, e os seus olhos vaguearam, por breves momentos, do rosto de Mentesúfis para o mar, que batia suave nos molhes.

— O Mestre já reparou que os barcos desapareceram?! Não se vê nem um…

— De facto, é estranho… — comentou o velho, pensativo. — Para onde terão ido? E logo todos ao mesmo tempo!

Continuaram a caminhar, e rapidamente se aperceberam de que algo não estava bem. Àquela hora os pescadores estariam debaixo da fábrica do peixe, protegidos pela sua sombra, remendando as redes até que as mulheres lhes trouxessem o farnel; aí comeriam e beberiam ruidosamente. No entanto, quando os dois olharam melhor, constataram que tudo se apresentava como que abandonado: as redes, as agulhas, os fios e até os impermeáveis estavam nos seus sítios, tudo menos os respectivos donos. O silêncio anormal só era quebrado pelo persistente vaivém do mar. Passaram a fábrica, e ficaram estupefactos com o que viram: para além do desaparecimento das embarcações, toda a aldeia era agora um espectro do que até há algumas horas fora. As casas pareciam aventesmas querendo gemer sem voz para o fazer, as portas e janelas escancaradas, e das pessoas… nada. Era uma aldeia fantasma.

— O gigante também desapareceu… — constatou o jovem.

De repente, o céu enegreceu escurecendo o mar, ficando ambos fundidos numa cor de chumbo; as ondas cresciam e partiam-se contra tudo o que se lhes opunha, e uma chuva torrencial abateu-se sobre eles, obrigando-os a procurar abrigo na fábrica, pois aquele era o que ficava mais próximo. Subiram a escada de pedra, e entraram no pequeno compartimento onde eram feitas as contas à chegada e saída do pescado. Era um primeiro andar todo envidraçado com vista para quase toda a praia e parte das casas que ficavam mais próximas dos molhes. Ali ficaram, à espera que a chuvada parasse. Observaram lá de cima calados o insólito cenário. Mentesúfis perguntou:

— Vésper, qual gigante?

— A embarcação enorme que ontem à noite entrou pelos molhes, na aldeia. O Mestre não a viu, quando saiu, depois de nós?

— Ah, esse gigante! De facto, era dos maiores que já tenho visto. Provavelmente seria propriedade de algum dos armadores das Escarpas do Norte. Só eles têm naves de tamanhas dimensões. Mas porquê o teu interesse neste «gigante», em particular? Decerto já viste outros, desde que cá estás! — disse o homem mais velho, tentando decifrar o que o jovem não lhe contava.

Aquilone… — sussurrou Vésper. Mentesúfis olhou-o, expectante.

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A seguir…

O Conto da Orbe | Episódio 13
Meninas e Caprichos — “Lágrimas de todos os povos”

Na fábrica do peixe, Mentesúfis revela a Vésper a história atroz de Vaz, pai de Sal, no Velho Oriente.

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M. Jesus Victor
M. Jesus Victor

Fantastic-realism fiction writer. Born in Lisbon, in the sixties. Several artistic tendencies. Former lead singer in a famous band.


O Conto da Orbe
O Conto da Orbe

O Conto da Orbe é o meu primeiro romance. Uma obra de ficção apaixonada cheia de poesia, talvez o primeiro de uma peculiar saga com um verdadeiro toque lusitano. Uma narrativa inesperada e empolgante que mergulha sinuosamente no realismo fantástico, um género pouco comum, quase inédito no universo dos autores modernos portugueses.

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