O Conto da Orbe | Episódio 11 | Vésper do Sul — “Contornos desnudos”

O Conto da Orbe | Episódio 11 | Vésper do Sul — “Contornos desnudos”

By M. Jesus Victor | O Conto da Orbe | 8 Nov 2020


… Vésper via-se no meio do mar, pairava a escassos centímetros da água. Olhava em redor e nada, só o horizonte vazio, e tudo parecia em paz. No seu coração, porém, sentia a inquietação que, surgindo do nada se agitava e impunha. Olhou para baixo, na direcção dos seus pés, e algo de indistinto sobressaía ondulando lá no fundo. Foi-se curvando, aproximando o rosto cada vez mais da água, na tentativa de entender do que se tratava… quando de súbito a sua cabeça foi agarrada por um par de mãos, que o puxaram submergindo-o. Em pânico, impedido de respirar, pôde no meio da aflição perceber que, tanto as mãos como o corpo ao qual pertenciam, eram de papel, bem como todos os outros corpos que, como medusas, subiam até à tona da água para aí se desfazerem em farrapos até desaparecerem.

Para Vésper ficou claro que representavam de alguma forma almas em sofrimento, que ele sentiu de modo tão intenso, levando-o a acordar alagado em suor, puxando ar para dentro dos pulmões como um quase afogado. Mentesúfis, que já há alguns anos dormia sonos soltos, acordou ao ouvir o jovem. Acalmou-o, falando-lhe baixinho para não acordar a filha. Deu-lhe um copo de água fresca, sentou-se na sua beira, e ali ficou até se certificar de que ele voltava a adormecer em paz. Foi quando reparou que, na face de Vésper colados com o suor, estavam cinco papéis compridos que lembravam cinco dedos de uma mão. Muito intrigado, e com cuidado, retirou-os um a um, e no fim sentiu um arrepio na base da nuca. Pegou na manta, cobriu melhor o rapaz e viu-o com os olhos muito abertos, vidrados, fixos em algo invisível. Mentesúfis estava assustado, mas imóvel. Tentou falar-lhe sem obter resposta. Resolveu então esperar, e para seu espanto, notou que as pupilas de Vésper dilataram até cobrirem toda a íris, como dois poços negros profundos, lembrando os olhos de um gato quando quer ver na escuridão; a sua boca abriu-se o mais possível e, sem o menor movimento, saiu uma voz de criança choramingando, acabando numa litania. E de repente tudo acabou como começara. O jovem fechou os olhos e a boca, virou-se para o lado e pouco depois ressonava ligeiramente.

Mentesúfis não sabia o que pensar de tudo aquilo; não dormiu mais. A aurora já anunciava o novo dia. Olhou pela janela, os azuis e lilases passavam lentamente aos laranjas e amarelos, até atingirem a luz profusa da manhã — e como ele sempre dizia «à luz do dia todos os mistérios são desfeitos» —, no entanto, e naquele momento, não estava assim tão seguro disso. Sentia-se ansioso pelo despertar dos outros, principalmente de Vésper.

Foi o som da água remexida que primeiro o acordou, em simultâneo com a fragrância de rosas cor-de-rosa, aroma que lhe era familiar. Abriu os olhos e viu Mentesúfis de costas preparando algo no lume. Virou ligeiramente a cabeça na direcção do som, e pôde ver na parede a silhueta de Sara que se banhava na selha velha, entoando uma melodia em surdina; a imagem lembrava um teatro de sombras. Imóvel, permitiu-se apreciar tão belo cenário — os contornos desnudos da jovem e a graciosidade com que se molhava eram em si um poema que, sem rosto, fazia com que a excitação de Vésper fosse sem culpa. Subitamente, a figura projectada na parede desaparece engolida pelo vaso com água. O rapaz levanta-se de um salto, assustado; Mentesúfis vira-se para ele, e, no mesmo instante, na porta da rua surgem Gui e Sara, vaporosa no seu vestido branco com os cabelos esvoaçantes, que corando, tapa um sorriso maroto com a ponta dos dedos. O pai faz um barulho como quem limpa a garganta, e a moça volta a sair. Gui, porém, não deixava passar uma oportunidade para fazer graça com o amigo:

— Está ventando muito, é melhor recolher a bujarrona, não vá o mastro rasgá-la! — E saiu a correr gargalhando. Mentesúfis voltou-se de novo para o fogão, rindo à socapa…

— Bom dia. Deves estar com fome. Estou a preparar-nos um desjejum à moda de Pan. — Olhava-o de fugida. Podia ver a expressão do jovem que, apercebendo-se da protuberância como resultado do que afinal não passava de um sonho breve (assim julgava), se cobria com a almofada retirando-se para o quarto com a rapidez de um gato, segurando com a outra mão os cordéis das calças de algodão, não fosse o pano fugir. Descalço e em tronco nu, ainda em choque, agarrado às calças e à ‘fofa protecção’, ali ficou no meio do seu quarto, onde Sara pernoitara. Agachou-se para tirar as sandálias de baixo da cama e reparou que, do outro lado, encostada à parede junto da pequena janela, se encontrava de facto a selha ainda com água e pétalas de rosa, e no meio destas a fitinha que antes segurava a chave da arca.

Composto e já refeito do peculiar amanhecer, Vésper voltou para a sala do fogão e começou a arrumar as camas improvisadas. Mentesúfis, percebendo que o jovem estava ainda um pouco embaraçado, meteu conversa naturalmente como só ele sabia fazer, remetendo o ocorrido para o esquecimento. Agora, mais à vontade, os dois refastelavam-se com bolinhos de mel e canela, morangos frescos e natas, e uma infusão de chá verde bem forte para ajudar a purificar o sistema dos exageros da noite anterior.

— Até parece que estou em casa — dizia o jovem deliciado. Mentesúfis satisfeito por agradar levantou-se e foi buscar o pão ao forno de lenha, e a manteiga fresca. Sentou-se, pegou num naco de pão, e ao barrá-lo começou em tom casual:

— Então, rapaz? Dormiste bem? — Vésper como se se tivesse apercebido de algo apressou-se a dizer:

— Onde está a minha educação? Mestre Mentesúfis, eu é que lhe pergunto se a cama não era muito dura. Podia ter ficado com os dois colchões. E Sara, porque não come connosco? — O homem mais velho acalmou-o, dizendo-lhe que tanto ele como a filha ficaram muito bem, e a rapariga tinha comido primeiro com as pressas de ir acordar Gui, e que pedia desculpa por não ter esperado por eles.

— Portanto, estamos todos bem. E tu? — insistiu.

— Eu? — Ficou pensativo… — Por acaso tenho esta sensação um pouco desorientadora de ter dormido duas noites numa só, tendo-me sido sonegado um dia inteiro… como se outro o tivesse vivido por mim! Estranho, não acha, Mestre?

Mentesúfis cada vez mais intrigado perguntou-lhe se se lembrava de ter sonhado, ao que ele respondeu inesperadamente que não. Mudaram de assunto e falaram de Pan, das receitas culinárias de fazer crescer água na boca. As que o Mestre conhecia tinham sido trazidas pelos seus pais. Vésper, cheio de saudades, lembrou a sua casa e o jardim de água… Mentesúfis ouvia-o atentamente, as descrições eram tão pormenorizadas que confessou o desejo de vir a conhecer lugar tão belo!

— Fica desde já convidado, aliás serão todos muito bem-vindos! — sentenciou o jovem entusiasmado com a ideia. Subitamente a sua tez ficou sem cor; não fosse o Mestre ampará-lo, e ter-se-ia estatelado no chão de laje, com os olhos cerrados e as sobrancelhas contraídas como quem sente dores. Murmurava: «Não chores. Eu levo-te… Não tenhas medo do escuro frio… Aquilone…» Lentamente o seu rosto descontraiu e, ainda trémulo, abriu os olhos.

— Mestre Mentesúfis; tenho de ir à aldeia. Passa-se alguma coisa.

— O que é que viste? Diz-me… — ansiava o homem mais velho, lembrando-se do sucedido na noite anterior.

— Mestre, não quero tornar real, nem por mera narrativa, algo que espero não passe de armadilhas da minha mente, privando-me da verdadeira compreensão…

— Nesse caso irei contigo, e para não alarmarmos desnecessariamente os outros, diremos apenas que vamos a minha casa buscar os frascos medicinais, o que não será mentira!

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A seguir…

O Conto da Orbe | Episódio 12
Meninas e Caprichos — “Uma aldeia fantasma”

Iminência da morte, iminência da vida. Um jogo antigo.

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M. Jesus Victor
M. Jesus Victor

Fantastic-realism fiction writer. Born in Lisbon, in the sixties. Several artistic tendencies. Former lead singer in a famous band.


O Conto da Orbe
O Conto da Orbe

O Conto da Orbe é o meu primeiro romance. Uma obra de ficção apaixonada cheia de poesia, talvez o primeiro de uma peculiar saga com um verdadeiro toque lusitano. Uma narrativa inesperada e empolgante que mergulha sinuosamente no realismo fantástico, um género pouco comum, quase inédito no universo dos autores modernos portugueses.

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