Sirwin
Sirwin

Do coração da Floresta


Do coração da Floresta Amazônica, escrevo para o mundo. Daqui, desse “paraíso” ou “inferno” verde, tento me manter numa realidade para além do normal ou virtual. A necessidade de manter a floresta em pé, viva,nos pede medidas urgentes e, por muitas vezes difíceis de se implantar. Hoje, a floresta sofre, assim como todos os povos originários, seus verdadeiros representantes, o resultado do desmatamento e da exploração ilegal do ouro.. Na tarefa de conscientizar, eu escrevo e reescrevo… temos, para nos ajudar, nossos mitos, que assim como a floresta, lutam diariamente em busca de preservação. A cidade onde moro, Manaus, é um dos destinos turísticos mais cobiçados no momento, então, é preciso entender que, quem aqui chegar é mais um a se engajar nessa causa ecológica e humanitária. Para além dos bitcoins, NFTs, temos um mundo material, que se pode tocar e que sem o qual, não haveria o virtual. Mas, enquanto a tecnologia avança, o pensamento se cristaliza ou até recrudesce para o que há de mais negativo.Agora, você deve se perguntar, por que alguém tão preocupada com o meio ambiente, é uma entusiasta de blockchains, tokens, criptomoedas, que, afinal de contas, ainda usa de meios que vão totalmente ao desencontro do que se propõe as questões ecológicas? 

Bom… direi eu que sou uma entusiasta das propostas levantadas pela web.3, que busca formas e maneiras de se adequar ao futuro com todos os problemas que se nos apontam. Acho, como leiga no assunto, que, uma vez chegados aqui, não temos como retroceder…. o seguir adiante, porém, nos pede mais comprometimento com a realidade do lado de fora do virtual que nos envolve. Percebo a resistência em torno da web.3, porque, eu acredito, que possa ser transformadora para o lado do bem. É tempo de se encontrar soluções e não socá-las embaixo de um tapete, onde só quem tem muito pode pisar. Não quero me alongar, já que minha intenção hoje, era apenas escrever um mito amazônico. Assim como a web.3 procura se manifestar, a tatear ainda no escuro, estou eu, contudo, mesmo não sendo uma expert no assunto, percebo através da névoa, um norte, um porto seguro, além de qualquer contestação. O conto do Iauaretê, penso eu, tem tudo a ver com este momento de renovação. Iauaretê é uma espécie de onça preta ou jaguar, cujas manchas quase não são visíveis, sendo que cada mancha é única. Então, vamos ao conto?

            Iauaretê             

Insondáveis mistérios ainda persistem nas profundezas daquela mata. O mundo mudou em muitos aspectos, mas em outros permanecia indiferente. 

Crepúsculo! A grande goela aberta do Iaguaretê, pronto a engolir o sol, assim pensavam os maias que pensavam também ser o sol o jaguar no céu do dia e, ao cair da noite, a fera que descia à terra para salvaguardar a escuridão! 

Um mito não é uma mentira, nem uma mortificante verdade literal... É o nada que abrange tudo, nossa explicação de mundo!  

Agora, o barulho cotidiano acalmou-se. Apenas as cigarras e, logo depois, um tímido uirapuru ousavam quebrar a monotonia. Os caminhos se fechavam. Restavam-me as sombras de lugares onde viver, onde me esconder, tarefa ultimamente quase impossível dada às precárias condições. O verde está a desaparecer... Assim também como tudo aquilo que dele faz parte. As cavernas não são mais tão seguras e minha desventura, um preço certo a pagar. É chegado o tempo do não lugar, o tempo do não tempo... aproxima-se o ciclo “aterrador.” As mudanças são necessárias, nunca cessam. Não há como deter o processo evolutivo, entretanto, os homens ainda não compreenderam isso, jamais entenderam que eles é que são os estrangeiros, alienígenas, os corpos estranhos num mundo perfeito. Eles são os detratores da beleza, os massacradores de vida… mas, é natural tudo ter um fim! Faz parte da vida, caminhar para a morte.

Terei que esperar mais um pouco, não mais, porém, uma longa espera. O pouco com a sensação de eternidade logo irá se acabar! Farejo o medo e o desespero no ar, irmãos gêmeos... Ambos incitam à destruição, pois a ansiedade gerada conduz-nos aos erros que tanto tentamos evitar, erros banais, erros fatais. Estou cansado! E eles com medo. 

Os “xamãs” do mundo moderno inventam novos ritos e novos nomes para suas ciências e religiões. Constroem enormes templos de adoração e saber, criam outras realidades, ultrapassam limites, mas ainda não viram a luz, que, entretanto, já começou a fazer seu trabalho, agindo no âmago das coisas e dos seres. É o começo do fim da segunda idade das trevas. As respostas que buscam, estão dentro deles mesmos, mas, me perseguem como se eu detivesse todos os segredos do Universo... alguém lhes disse que esses segredos estão tatuados em minha pele; cada pinta; cada mancha espalhada ao longo do meu corpo é como se fossem para eles um mundo à parte, cheio de intrigantes, irrespondíveis mistérios. Por mais que eu devore todo o mal e clareie a escuridão, eles continuarão a me perseguir. Ainda acreditam em sacrifícios. Será assim até o fim.

O cometa acabou de passar. Deixou uma canção no ar. Treme a Terra, em ritmo frenético, espasmos de desassossego... Contração/expansão, vida/morte... união dos opostos, hoje e sempre, eternamente. Silêncio! O medo, o medo de encarar a situação; solução. O medo é a cortina que se rasgará para mostrar-lhes outra possível realidade só cabível nos sonhos. O medo lhes dará coragem e os fará acordar. O medo é bipolar... A crise levará a Terra a divisar um novo horizonte! Assim está escrito nas sucessivas formas geométricas que compõem cada estação.

Concentro meu olhar na estrela Vésper… meu Aleph. Em alguns instantes já não será mais visível. Para ela convergem todos os meus pensamentos, como uma oração aprendida ao Deus que habita todas as coisas. Penso no velho xamã maia que estudou até a exaustão as pintas de minha pele, decifrando o código que, acreditava ele, um dia, esse mesmo Deus confiara a mim. A palavra mágica que imporia a suprema ordem ao caos. Agora eles confundem-me com o próprio Deus, do qual, enfim, sou apenas uma parte, como eles, como a natureza, como o resto dos seres. Não se reconhecem uns nos outros como parcelas da divindade. Confundem as partes com o Todo. O segredo descoberto e tão bem guardado pelo velho xamã, veio na voz do tempo e do vento e urge, no momento, ser objeto da cobiça comum... A palavra mágica que lhes dará imortalidade e poder sobre a criação que não lhes pertence. A criação é um empréstimo divino!

Eles estão cada vez mais perto... Ouço seus passos e suas vozes desencontradas. É hora de dar o salto... O vazio, o nada é minha esperança de futuro... O que haverá do outro lado? O vento me chama... Eu tenho de ir e eles haverão de me seguir... O abismo está prestes a se abrir e os passos cada vez mais rápidos, apressados... Têm fome e sede, mas não sabem do quê... Não sabem distinguir os alimentos realmente necessários... são como crianças no jardim da infância e eles ainda acreditam em sacrifícios, mas, eu não...

 

How do you rate this article?

3


Cantilena do Corvo
Cantilena do Corvo

Apenas um pássaro em busca de onde pousar. *** Just a bird looking for a place to land.


Cantilena do Corvo
Cantilena do Corvo

Blog focused on the "everyday squeegee", that is, the day to day and its sorrows and joys... OR NOT! ************************************* Blog voltado para o "rodo cotidiano", ou seja, o dia a dia e suas tristezas e alegrias... OU NÃO!

Send a $0.01 microtip in crypto to the author, and earn yourself as you read!

20% to author / 80% to me.
We pay the tips from our rewards pool.