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“Você é tão ridículo que nem ao menos reage”, disse o garoto enorme enquanto espanca Peter com a pesada espada de madeira. O olhar de deboche era assustador para o garoto, talvez tão assustador quanto a surra com a espada.
“P-por favor… P-p-para, v-você j-já tem tudo que quiser”, Peter tentou falar, mas o sangue em sua boca o fazia engasgar a cada palavra.
“Ter o que eu quero? Você ainda não entendeu, pequeno Peter? Você é meu bichinho de estimação, e eu vou me divertir com você até me cansar. Eu não aguentava mais os professores te elogiando, falando do quanto você era inteligente, da sua facilidade de aprender e de todo o resto. Mas aqui você é tão inferior quanto eu, e, como nesse mundo eu não tenho uma privada para enfiar sua cara, eu vou continuar te batendo com essa espada até que eu me canse”
O garoto levanta a espada de madeira até acima da cabeça, mas, ao invés de acertar de novo as costas de Peter, ele olha para os lados, e, ao ver algumas pessoas se aproximando, disfarça e guarda sua arma.
Peter era um garoto tímido, fraco, de uma família de classe econômica baixa, e que não possuía absolutamente nada de importante, chamativo ou atrativo, nem em posses, nem em seu corpo. Quando fizeram o ritual de invocação e chamaram ele e seus colegas para o outro mundo, ele recebeu o rank mais baixo entre todos, o rank E, e era inclusive chamado pelos outros de “isca humana”.
George, o garoto que o batia, era o exato oposto. Filho de executivos, mimado e arrogante, foi colocado em um colégio filantrópico como punição por seu mau comportamento, e usava a violência contra Peter para conter suas frustrações. Quando foi invocado para outro mundo, recebeu o rank C, que ficava na média, o que feria ainda mais o seu ego.
George se abaixou quando viu o instrutor de combate se aproximando, e sussurrou no ouvido de Peter: “se você tem amor a vida, não vá para a próxima masmorra”. Ao ver o desespero nos olhos de Peter, ele saiu, sempre mantendo sua postura arrogante.
Peter tentou se levantar, sem sucesso, enquanto sentia como se suas costelas estivessem rachando. Mais um dia de merda…
“Vocês tem que entender que estamos a beira de uma guerra não apenas contra o Senhor das Trevas, mas contra cada um dos outros setenta e dois reinos, cada um dos setenta e dois reinos não humanos, por isso, comecem a levar isso mais a sério”, disse Gregorius.
O instrutor levava os invocados para dentro da masmorra, sempre os instruindo sobre as espécies de monstro e que tipo de magia elemental era mais eficaz para cada categoria e espécie de monstro. Cada informação era singular, e, embora o modo de combate de cada um sendo diferente, cada uma das informações era essencial para garantir o sucesso das batalhas.
Seres humanos comuns não tem um potencial ilimitado. Todo ser humano possuía uma aptidão natural e um limite máximo de suas capacidades físicas e mágicas. Existem algumas coisas que podem ser feitas para quebrar essa limitação, como implantar carne e sangue de demônios e monstros no próprio corpo, mas não é uma forma prática de se aumentar a própria força. Entretanto os invocados possuem uma estrutura física completamente diferente da estrutura convencional de um nativo, e isso se torna uma trapaça absurda. Os limites deles, teoricamente, são os mesmos de um arqui-demônio. Entretanto, as aptidões naturais de cada um ainda eram as mesmas, e por isso o treinamento é tão importante.
Os ranks de aptidões são divididos em cinco classes, indo de E (mais baixa) até A (mais alta), e o nível geral é calculado utilizando um circuito mágico extremamente complexo desenvolvido pelos mais poderosos magos do reino, onde mostrava tanto o nível geral (uma aproximação do nível médio do soldado) quanto os níveis específicos (nível médio do usuário em determinada habilidade, como esgrima ou magia), assim como dados estatísticos sobre o desempenho deles, sendo útil para determinar a velocidade de crescimento do guerreiro, seu nível de habilidade em determinada arma, arte ou magia, e até mesmo a categoria de monstros a se evitar e a se atacar.
Porém, no grupo, havia um peso morto. Um guerreiro mais fraco que um nativo, com uma aptidão quase nula, e que tinha que ser carregado pelos outros. Gregorius já estava se sentindo um idiota por perder tempo com um garoto tão inútil. Esse era Peter.
“Instrutor, me ajude, pelo amor de Deus”, gritou Peter enquanto era atacado brutalmente por uma ratazana gigante.
Antes que Gregorius pudesse se virar, um dos melhores alunos atacou o monstro com uma lança.
“Você deveria tomar mais cuidado, Peter, ou ficar logo atrás de mim”, disse Mary, uma garota loira de olhos verdes e feições delicadas, dando contraste a suas habilidades monstruosas. Enquanto Peter era um guerreiro de rank baixo e praticamente sem habilidades, as estatísticas de Mary eram as mesmas de um soldado de elite, e ela havia acabado de iniciar o treinamento, ou seja, ainda estava em seu mínimo. Em termos de nível de poder, ela ficava em oitavo lugar na turma, perdendo apenas para um pequeno grupo seleto que havia sido recrutado pela igreja para portar as armas sagradas do império. E ela era a única que realmente se importava com Peter.
O garoto se levantou mais uma vez, pegou a espada no chão, e a levantou na única base de batalha que conhecia, tremendo tanto que parecia que iria desmaiar. “Não precisa se esforçar tanto, ‘Pitt’, eu cuido de você”, a bela garota disse com um sorriso no rosto, enquanto Peter olhava para o chão com vergonha.
Embora ela sempre deixasse claro que possuía algum sentimento por ele, Peter não tinha coragem nenhuma para trocar mais que poucas palavras com ela. Será que ele sequer percebia? Ou será que não? O carinho que ela tinha pelo garoto fazia seus colegas sentirem ainda mais raiva dele, o que aumentava ainda mais o bullying, principalmente vindo de George.
Gregorius até tentou ajudar o garoto no início, mas, depois de ver que seu crescimento era mínimo, desistiu. “Seria melhor vender ele para algum outro reino, ou até dar de presente aos monarcas”, dizia Gregorius aos seus superiores. “Um peso morto que jamais irá evoluir, e ainda trará mais e mais discórdia ao grupo, não importa o quanto lute e se esforce.”
Peter sentia que não gostavam dele, mas ele também tinha medo de tentar fazer algo, medo de fazer algo heroico ou idiota demais. No fim do dia, sempre que voltavam para cada, ele era o patético do grupo.
Depois de horas a fio lutando contra monstros fracos, estava na hora de voltar ao palácio, refazer os exames de nível. Mais uma vez, Peter foi dormir sem progresso. Mary até tentou o seguir, mas um garoto em prantos consegue ser bem rápido.
Enquanto isso, bem perto dali, um professor e um aluno conspiravam em torno do polêmico tema acerca do avanço da turma, ambos tecendo um plano em mente para fazer o grupo reunir. Um, motivado por sentimentos não correspondidos. Outro, por um orgulho cego e ódio profundo, sentimentos que, unidos a um cargo de grande importância, criavam monstros capazes de fazer qualquer coisa por poder.