Acusações de parte a parte e movimentações erráticas deixam usuário da Transferwise sem saber até onde MS Bank tem razão ou fala o que aconteceu de fato
Para aqueles que tem lidado com envio de reais para o estrangeiro por meio de fintechs que alegam facilitar o processo, o mês de fevereiro reservou surpresas, já que uma das plataformas que propõe fazer esse “meio de campo” de forma simples e barata, a Transferwise, parou de funcionar (pelo menos na operação reais → outras moedas) repentinamente.
Os cliente ficaram ainda mais assombrados quando descobriram por meio de um email que a empresa que era sua parceira, o MS Bank Banco de Câmbio, não só rompeu a parceria com Transferwise como lançou uma plataforma própria, ainda que simples – você tem que sacar o dinheiro a moda antiga, indo até uma subsidiária ou loja autorizada (seis endereços em Lisboa e um no Porto, em Portugal, por exemplo). Mas this is bussiness e em mercados altamente lucrativos e cheio de concorrentes, coisas assim acontecem o tempo todo.
Juntando a isso, a Transferwise fez uma rebranding e mudou sua marca e seu nome pra Wise e demorou alguns dias para responder o que estava acontecendo. Quem se viu sem meios de mandar dinheiro para fora pela plataforma teve que procurar um outro caminho para fazê-lo.
Olha ele, olha ele...
O susto ampliou-se quando o MS Bank enviou um novo e-mail, divulgou um vídeo e colocou um banner no seu site: o MS Bank teria descoberto e denunciado uma fraude onde a Transferwise manipulava cotações para enviar valores não declarados para sua sede no Reino Unido. Com uma dinamicidade de uma lebre morta, a agora Wise rebateu as acusações, acusando a MS Bank de uma campanha deliberada de difamação contra si. Eles também explicam que as diferenças entre os valores presentes nos registros dos cliente e do que está presente no registro do Banco Central se deveria a taxas embutidas pelo MS Bank para converter o dinheiro primeiro para dólares norte-americanos para depois fazê-lo na moeda de destino do cliente.
Uma pulga atrás da orelha
De fato, existem diferenças entre os valores registrados no Transferwise e no Banco Central, mas curiosamente ela sempre é percentualmente igual: aproximadamente 1,4% para transações em euro e 1,9% para operações em dólar. Para uma “operação encoberta”, ela era bem sistemática...
Mas a história tem contornos bem complexos. A Wise recebeu autorização do governo brasileiro para atuar como operadora de câmbio. Assim ela não precisaria mais de um intermediário (o papel alegado para o MS Bank) para fazer a venda e a transferência de moeda do Brasil pra fora. Tanto é fato que a transferência de reais para dólares americanos, euro ou libras já está funcionando normalmente. Entretanto essas informações não constam no site, nem no blog nem em parte alguma da comunicação do Wire em português. Um comunicado, em inglês, está presente na página norte americana da empresa desde 14 de março – mas ainda assim bem “discretamente” aqui. Há também a questão do MS Bank instigar os seus "clientes" a abrir reclamação junto ao BC caso percebam algo errado, pois o MS Bank alega que os dados eram repassados erroneamente para eles. Mas junto ao BC, o único nome que aparece 'do MS Bank (se você compra dinheiro em uma casa de câmbio, aparece o nome da casa de câmbio como intermediário e do banco autorizado como Contratante).
Por fim e ao cabo de tudo, #sqn
O caso ainda não está resolvido, com acusações e ameaças judiciais de parte a parte. Mas uma coisa parece bem definida (ao menos para mim): para uma empresa que afirma ser o mercado brasileiro o quinto maior onde atua, a comunicação do Wire é bem “primária” (no blog brasileiro deles, a sessão de “novidades” tem uma notícia em fevereiro, outra em janeiro depois uma por mês de novembro pra trás). Num cenário como esse, o MS Bank tem ganhado a dianteira no storytelling e buscando garantir seu quinhão com relativa tranquilidade.
A conferir quais serão as próximas cenas desse embate...
[EDITADO: parece que em dia 17 de março as transferencias em Euro foram normalizadas. A informação foi incluida no texto. 12h01 -3GMT]