A decadência do monarca

By lingy | arthursiq5 | 9 Apr 2022


Abrindo as portas de seu covil sombrio, o rei, decrépito, em seus milhares de anos de vida artificialmente estendida, lidava com o alto custo de suas ações e de sua longa vida. Nenhum de seus súditos nem sequer se assemelhavam aos que, inicialmente, ajudaram a construir o castelo, a construir as catacumbas onde sua esposa estava sepultada ou mesmo o serviram em suas inúmeras batalhas. Nenhum mérito mais havia em suas ações, apenas a produção e distribuição de moedas e a administração dos impostos era de sua competência agora. A longa vida, que foi a grande tentação do ancião, agora cobrava seu preço...

O rei estava cansado. Seu pescoço enrugado doía, e seus ossos estavam tão finos que ele conseguia sentir o vento em seus ossos. As escadas ele desce lentamente, sentindo o peso de seu corpo a cada degrau descido enquanto percorre lentamente a longa escada lateral. As paredes escuras de milhares de anos que ele viu sendo construídas agora estavam cobertas de mofo e insetos dos mais variados tamanhos e espécies. Todas as frestas e janelas da torre, que antes mostravam um reino próspero, agora mostram o que havia sido construído sobre as ruínas de seu reino amado.

Ruínas... Tudo se resumia a isso... Do que vale viver para sempre se você só compartilha sua vida com a destruição do que sobrou de suas conquistas?

O rei chega ao pé da torre, onde dois servos o esperam. Estes o cobrem com seu manto carmesim enquanto auxiliam o ancião a subir ao seu trono mais uma vez. Nem mesmo o trono era o mesmo, já havia sido substituído ao menos vinte vezes. Se tudo havia sido trocado, o que fazia aquele antigo reino ser o mesmo que o velho observava?

Vida eterna... Uma tentação que desde os tempos antigos todos os monarcas, sábios e guerreiros desejavam, um desejo proibido que, mesmo que pensem ser impossível, todos o buscavam. Lamentável e maldito dia o que aquela bruxa velha vendeu ao monarca o preparado que lhe permitiu ver mais que todos, e que permitiu que seu corpo perdurasse por tantas eras.

Seus súditos o contemplam com questões triviais, como disputas de terras e prestação de contas. Que chatice... Que cansaço...

O feiticeiro do rei chegou de novo com a taça diária da solução que mantinha o monarca ainda vivo. Dessa vez, ele recusou. Chega de prolongar artificialmente a vida. Isso não fazia mais sentido, afinal todos os que este amava já estavam há séculos mortos...

"O que isso me custou?", pensava o rei. "O que custou a vida longa que eu tanto desejava?"

Custou a morte. Não a morte do corpo, mas a morte de seus sentimentos, e de sua vontade de viver. Por gerações este se manteve para não enfraquecer o seu reino, mas um velho, mesmo que demore, sempre cai em decadência.

"Chegou a minha hora... Apenas se lembrem de tudo que eu sacrifiquei por vocês..."

Muitos súditos, apesar de perceberem claramente a decadência do antigo monarca e compreenderem plenamente a dor que este sentia, ainda se sentiram imensamente abatidos pelo fim da vida daquele que os governou por tantas eras. Ele merecia o descanso, apesar de tudo.

O monarca pede ajuda para se levantar. Ao erguer o corpo enrugado novamente, este sente que ainda conseguiria se manter vivo, caso assim o desejasse. Mas o rei não tinha planos de prolongar sua vida por mais um dia. Ao invés disso, sussurrou algo no ouvido do feiticeiro, que fica mais pálido que o de costume. O clima se enche de tensão enquanto o homem vira as costas e volta com um pequeno frasco com um pó cinza esverdeado em cima de uma bandeja.

Ao pegar o frasco, o rei sente que esta será a cena final de sua longa vida. Mas ele não queria um simples fim. Ele desejava sair desta vida para a próxima em um grande espetáculo. Imediatamente, com um gesto de sua mão ossuda, o rei ordena que os nobres da sala sejam executados imediatamente, ordem essa que é cumprida pelos inúmeros guardas reais que se encontravam no mesmo cômodo de vossa majestade. Quando o chão começa a adquirir um tom carmesim oriundo da mistura entre os fluidos corporais daqueles que haviam perdido suas cabeças, a risada assustadora e demoníaca daquele que vira milhares de vidas serem ceifadas pelas inúmeras guerras que lutara. O rosto do rei se contorcia em uma expressão diabólica e sedenta por sangue que não era vista há mais de mil anos, enquanto este tirava de seu manto um longo punhal de suas vestes e se dirigia ao último nobre vivo, perfurando o peito deste em movimentos quase impossíveis para um homem tão velho quanto o próprio reino.

Com o corpo completamente sujo de sangue, enquanto via seus súditos tentarem, inutilmente, fugirem, ele ordena que a chacina pare, e que apenas aqueles que viviam às custas de seu legado fossem para a outra vida junto com ele. Os soldados acatam a ordem sem discussão enquanto o rei se aproxima dos poucos trabalhadores, fazendeiros e cultos que se encontravam no recinto, acaricia a cabeça dos mais jovens e profere palavras doces em um dialeto há muito esquecido. Os súditos se enchem de horror ao perceberem que os assassinatos ocorridos há poucos minutos não significaram nada para o louco e cruel monarca que se encontrava em sua frente. Mas ninguém se atrevia a tentar pará-lo, pois a pena seria centenas ou até milhares de vezes pior que a própria morte.

O monarca abre as portas do velho salão enquanto engole o pó em seco. Os que estavam em frente às portas milenares do velho castelo, sem conhecimento algum da chacina ocorrida poucos minutos antes, se horrorizaram ao ver o rei e seus leais soldados cobertos de sangue escuro.

O rei se enche profundamente de alegria. Aquela cena seria lembrada por tantos milênios quanto os que ele vivera. Agora sim ele poderia partir em paz.

Seu corpo cai no chão, completamente sem vida, em meio a expressões de surpresa e de medo dos que estavam ao redor. Enfim, acabou.

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arthursiq5
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