A coisa na floresta

A coisa na floresta

By lingy | arthursiq5 | 14 Oct 2022


Em um dia qualquer, em um mês qualquer, em um ano qualquer da década de 80, uma caixa de fitas cassete com coordenadas geográficas que apontavam para uma clareira no meio do nada escrito na tampa foi abandonada na frente de uma delegacia no estado de Dakota do Sul. Ninguém viu o ex-dono da caixa, nem mesmo conseguiu qualquer pista sobre o remetente, apenas sobre o autor das fitas.

As fitas eram numeradas, e todas possuíam como autora uma mesma mulher adulta, identificada apenas como Claire. Algumas das fitas tinham poucos minutos de gravação, mas nenhuma das fitas tinha sido gravada no mesmo dia, de forma que se podia ouvi-las em ordem sem prejuízo na interpretação do conteúdo.

Todas as sete fitas foram transcritas, e diversas cópias foram espalhadas entre os agentes.

Em um primeiro momento, ao ouvirem o conteúdo de cada uma das fitas, os policiais julgaram se tratar de um trote. Porém, conforme o conteúdo das fitas começava a fazer menção à algumas evidências isoladas sobre desaparecimentos na região, assim como certas lendas urbanas locais, as menções cômicas sobre as fitas sumiram, dando espaço a uma análise mais séria sobre cada um dos dados.

Fita 1

Bem, eu sempre gostei de florestas, e… Ah, caralho, eu não sirvo pra essa merda mesmo…

Tem alguma merda do lado de fora da minha cabana, e é isso. Eu nunca encontrei ele pessoalmente (graças a Deus), mas é alguma coisa entre um cervo, um humano e um demônio. Eu não sei nem se vou estar vivo até amanhã, então, se você encontrar essas fitas, dá o fora daqui o mais rápido possível. Eu não tô brincando, porra!

Nas últimas duas semanas eu vi esse treco rondando a cabana, tentando abrir portas, quebrando os vidros das minhas janelas, revirando os lixos, matando os guaxinins que apareciam, e até apareceu com a perna de um cara. Eu chego a ter medo de ficar em casa, e, depois que essa merda apareceu aqui, as coisas tão ficando estranhas pra caralho.

[batidas na porta e o som de algo caindo podem ser ouvidos ao fundo da gravação]

Eu tenho que… eu tenho que me esconder. Continuamos depois…


Fita 2

Ok, vamos tentar de novo… Agora são, mais ou menos, umas 2 horas da tarde, e a coisa só volta de noite. Eu tô com uma cerveja aqui, e, meu Deus, que stress. Vamos do início de novo

Eu vim para essa “armadilha para turistas” no meio do nada para poder descansar minha cabeça e ter férias de verdade, sem ninguém me enchendo o saco com trabalho e mais trabalho. Mas, cacete, essa merda apareceu logo no primeiro dia. Eu acordei no meio da noite ouvindo o barulho de algo grande sendo esmagado, aí eu espiei pelo olho mágico e vi uma merda com corpo de homem, cabeça de cervo, um enorme bico de corvo e asas de morcego nas costas pisoteando um alce morto. Logo depois, essa coisa foi para a minha porta e começou a lamber o olho mágico.

Eu dei um passo para trás, apavorada, e em uma fração de segundos eu ouvi um barulho do meu carro sendo destruído. Quando eu voltei para o olho mágico, aquela coisa não estava mais lá, e o alce morto havia sido despedaçado em cima do capô do carro.

No dia seguinte, eu empurrei o alce para fora do meu capô e tentei ver o estado do carro, e descobri que eu estava ilhada. O impacto do alce soltou alguma coisa, e o motor estava parado no chão. Tentei também ligar para alguém, mas os cabos de telefonia tinham sido roubados. Em resumo, eu tinha acabado de descobrir que eu estava presa no meio do nada com uma coisa bizarra passeando por fora da minha casa.

Por sorte, depois de uns dois ou três dias, eu descobri que aquela coisa só aparece de noite, então eu usei a machadinha que eu encontrei perto da lareira para cortar lenha e também conseguir madeira para fazer uma barricada, e, como aquela coisa teve a decência de não roubar também os fusíveis, eu tinha uma geladeira cheia de comida.

E é assim que eu estou até agora, acordando no meio da noite para ver aquela coisa espalhar cadáveres de animais aleatórios pelo quintal, vendo ele lamber a porta e fazer poses e gestos obscenos e indo embora.

Mas há uns dois dias alguma coisa mudou.

Ao invés de ele só matar aleatoriamente animais, ele começou a tentar entrar na casa. Ontem ele tentou entrar na casa pelo porão, mas a minha sorte é que eu tinha colocado o cesto de lenha em cima do alçapão, e anteontem ele tentou procurar um buraco no forro. As janelas já estão todas quebradas, mas ele não conseguiu entrar por elas, então acho que as barricadas estão funcionando.

Só espero que ele não tente fazer nada mais violento.


Fita 3

Bem, ontem eu tive uma noite tensa. Logo depois de ter terminado de gravar a fita, aquele bicho tentou entrar pela chaminé. A minha sorte é que eu estava com a lareira acesa, aí ele acabou caindo em cima do fogo. Claro que não tinha como ele subir tão rápido assim, então eu quebrei uma das patas dele com uma porrada com o machado enquanto ele escalava para fugir. O ângulo que aquele osso ficou foi muito estranho, então eu acho que ele não vai conseguir correr caso eu o encontre por aí.

Agora é quase de manhã e ele ainda não apareceu. Ou eu afugentei ele ou eu deixei ele com muita raiva. De qualquer forma, eu vou ter que ir embora uma hora ou outra, então eu não tenho muita escolha a não ser dar o fora daqui.


Fita 4

Hoje de manhã, depois de ter terminado de gravar, eu enchi minha mochila de comida seca e garrafas de água, comi um monte de carne e arroz e comecei a caminhar. Decidi que eu precisava sair dessa floresta o quanto antes, ou morrer tentando. Agora deve ser algo entre 5 e 6 horas da tarde, e é a primeira vez que eu paro no trajeto. Nem mesmo um único carro passou por aqui, então eu acho que estou mesmo muito fodida.

O sol está se pondo, e eu estou aqui fora, com aquela coisa escondida em algum lugar por aí. Ao menos eu vi uma cabana no meio da mata, parece ser uma cabana de caçadores ou algo do tipo. Se não tiver ninguém lá dentro, vou ser obrigada a arrombar a porta.

[sons de queda]

Merda! Caralho, que porra, meu pé. Puta que pariu.

[gemidos de dor]

Bosta, primeiro aquele merda destruiu meu carro, e agora isso! Puta que pariu!

[sons do aparelho gravador sendo pego do chão]

Ok, eu caí. Não quebrei nada, mas agora tem uma bosta de um corte. Tá doendo pra caralho, então eu preciso fazer um curativo. Se aquela cabana não estiver aberta, eu tô muito fodida.

Eu preciso dormir em algum lugar seguro. Não é seguro passar a noite aqui fora. Não agora…


Fita 5

Bem, não posso dizer que as coisas estão melhores ou piores. Encontrei uma garota na cabana que está passando pela mesma situação que eu, mas, ao contrário de mim, a coisa que está aparecendo para ela ainda não tentou entrar na cabana. É quase como se fosse algum tipo de ritual, esse treco nos impede de fugir, coloca vários cadáveres de animais aleatórios na frente da casa, e, depois de uns dias, tenta entrar na casa e fazer algum tipo de contato físico.

O nome da garota é Ellen, e ela estava aqui com o namorado. Eles estavam de férias e queriam relaxar um pouco longe da loucura da cidade. Bem, pela força que o namorado dele foi arremessado no carro, eu tenho uma leve impressão que essas coisas não gostam muito de concorrência…

Eu ainda prefiro pensar que essa coisa quer nos devorar. Ser levada em algum tipo de ritual de acasalamento bizarro é algo, no mínimo estranho.

Ela me ajudou a fazer um curativo no meu pé, e passou um pouco de iodo. Eu tô rezando para funcionar, porque, se infeccionar, eu tô fodida.


Fita 6

A coisa que estava seguindo a outra garota pegou ela. De algum jeito, ela tinha a chave da porta da frente, então ter colocado móveis nas janelas foi inútil. Ela levou um soco no queixo e foi carregada no ombro como se fosse um saco de batatas.

Você, que está ouvindo isso, deve estar pensando: “como que ela não foi levada junto?”

Simples: ele não me quis. Ele olhou para mim, fez sinal de silêncio com os dedos e fechou de novo a porta sem fazer barulho.

Tentei seguir aquela coisa no meio do mato, e acho que ela não me viu, mas depois de alguns metros ele se encontrou com alguns outros deles, talvez três ou quatro, aí achei melhor me esconder e voltar para a cabana assim que eles se distraíssem.

Eu tenho que sair daqui o mais rápido possível, agora aquelas coisas sabem até onde eu estou.


Fita 7

Estou [ofega] caminhando [ofega] novamente… Que novidade…

[som de objeto pesado caindo]

Acho que eu tenho que descansar um pouco…

[respiração ofegante por 40 segundos]

Ok, basicamente eu tentei ir na direção da estrada de novo mas vi várias daquelas coisas caminhando no acostamento quando estava saindo de casa, então não me restam muitas coisas além de ir floresta adentro. Por sorte eu vasculhei a casa hoje de manhã antes de sair e encontrei algumas coisas de caçador, como uma pequena machete, um par de botas, um apito, alguns pacotes de comida desidratada e um mapa. Claro que não consegui a arma, que era exatamente o que eu precisaria, mas consegui improvisar uma lança com fita adesiva, um cabo de vassoura e uma faca de legumes. Qualquer coisa que ajude já é melhor que nada.

Então eu vou caminhar na direção noroeste da floresta, porque no mapa mostra que naquela direção tem uma cidade, e é mais rápido cortar caminho por ali. Pelo que diz no mapa, são cerca de sete quilômetros, então é possível de chegar lá em algumas horas. Mesmo assim, estou torcendo para conseguir chegar antes das quatro horas da tarde, porque senão eu tô completamente ferrada, porque, para começar, consegui apenas uma garrafa de água, e, em segundo lugar, eu não enxergo no escuro.

Em todo caso, me desejem sorte.

[som de corte na gravação]

[os trechos seguintes possuem tom de choro na voz]

Ok, passaram algumas horas e eu tô completamente fodida, porque a porra da cidade não existe. Eu acabei vindo parar no ninho dessas coisas, e eu consigo ouvir eles voltado, então eu sei que eu tô fodida. Tem umas vinte mulheres amarradas aqui, muitas estão grávidas, mas nenhuma delas parece estar consciente,e vários ossos humanos espalhados pelo chão. Eu não sei se um dia essa gravação vai chegar a alguém ou se essas coisas vão destruir tudo, mas, se chegar, diz para minha mãe que eu sinto muito.

A Ellen também tá aqui, tentei acordar ela, mas ela parece ter sofrido alguma lesão.

Meu nome é Barbara Simpson, eu moro na casa 314 E na 45th St, em Minneapolis, e, se você está ouvindo isso, eu já estou morta. Eu saí em uma viagem semana passada, e agora eu estou em algum lugar desconhecido prestes a ser morta por um monte de monstros estranhos. Vou tentar pelo menos levar alguns deles comigo, se é isso que tem que acontecer.

Eu não queria que as coisas tivessem acontecido desse jeito…

Por favor, avisem meus pais, Sarah e Peter, que eu os amo.


Três viaturas foram mandadas até o local apontado pelas coordenadas. No caminho, encontraram uma cabana com um carro esmagado, uma cabana parcialmente carbonizada com as ossadas de alguns seres não identificados e diversas pichações em placas com mensagens indicando que o caminho em frente era perigoso. Ao chegarem no local indicado pelas coordenadas, os policiais encontraram os cadáveres despidos e parcialmente decompostos de pelo menos oito mulheres adultas, assim como as ossadas de uma centena de mulheres. As únicas semelhanças entre todas elas era a fenda descomunal na região do abdômen e sinais grotescos de agressão física, como ossos quebrados e rostos desfigurados.

O Exército foi notificado e cercou o local, falando se tratar das vítimas de um suposto serial killer. Os policiais foram “aconselhados” a ocultar determinadas evidências, como a transcrição das fitas e as ossadas parcialmente carbonizadas dentro da cabana incendiada na montanha, assim como qualquer outra evidência que não corroborasse com a hipótese do serial killer. A via foi interditada, e parte da montanha considerada território de risco, com alertas indicando risco de desabamento e de ataques de ursos e lobos. Uma cabana foi construída por um dos pelotões, e, dentro dela, colocados oito soldados de elite fortemente armados, assim como um número desconhecido de (supostos) investigadores criminais.

O resto dos dados foram expurgados.

Um dos policiais foi encontrado morto sob circunstâncias suspeitas dois dias depois após me entregar a ficha do caso, a caixa das fitas cassete originais e fotocópias de diversos documentos de confidencialidade assinados por diversos policiais, todos eles com um selo da NSA e da Interpol.

Nenhum dado além desses veio a público após a quarentena da área, que teve sua mata nativa derrubada e pelo menos 9 (nove) cavernas dinamitadas.

Após o reflorestamento, não houveram mais relatos de desaparecimento do local, e a cabana construída pelo Exército foi queimada e o solo em seu interior e arredores esterilizado com cal e sal grosso.

Estima-se que 80 (oitenta) mulheres em idade fértil perderam suas vidas entre as décadas de 1900 a 1980 na região, e pelo menos 250 (duzentas e cinquenta) ainda permanecem desaparecidas. A identidade das vítimas permanece desconhecida.

Os restos de Barbara Simpson nunca foram encontrados.

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